Friday, September 05, 2008
Cana cai Ana
Saturday, August 16, 2008
vou passar cerol na mão
Monday, August 04, 2008
ultimo capítulo
- Ei!!!
Suas pedaladas não ficavam tímidas às passadas, ao contrário, eram tão ou mais resistentes e então ele alçou vôo. Pela retina as imagens se perdiam e como que hipnotizado seguia. Tinha uma promessa a cumprir, talvez por isso que quando se aproximava de casa, em meio ao alvoroçar de seus cabelos, o sorriso aos poucos se construía em seu rosto.
texto postado no cult blog 24/ 07/ 08
Wednesday, July 02, 2008
iônico
- Mas você é...
- Sim, sou eu.
- Mas...
- Precisamos conversar.
Ainda um pouco confusa, fechou a porta, mas antes verificou se ninguém as havia observado.
- Pode ficar sossegada, ninguém sabe ou mesmo viu que eu vim até aqui lhe procurar. Não notou que o tempo parou? Preciso apenas ser rápida, para que não interfira demais no bom andamento do que hoje ainda se arriscam a chamar de vida.
- Mas como?... É impossível... Você não...
- Eu sei, eu sei... Conheço todas as regras, não me venha com seus dogmas e paradigmas. Sei que a lei natural das coisas não permite que isso ocorra. Sei muito bem que onde eu estou você não deve estar. Sei também que justamente quando me enfraqueço você se fortalece e blábláblá... Acontece que precisava falar-lhe com extrema urgência, precisava lhe confessar e lhe cobrar algumas coisas.
Sentando, continuou:
- A verdade é que estou muito preocupada e não poderia deixar de vir, mesmo sabendo das penitências que tal ato podem me ser futuramente consagradas.
Gosto muito de sair pelas ruas a perambular. Sigo a observar as pessoas que passam por mim e que na maioria das vezes se aproximam e em meio à insanidade cotidiana nem notam a minha presença. Parece loucura, e talvez seja, mas em pouco tempo consigo sincronizar – pelo menos em meus pensamentos – o ritmo de seus passos e o bailar de seus corpos com a canção que ressoa em meus ouvidos, e a partir desse momento me perco nessa dança e sinto como se pudesse controlar a sinfonia do mundo, passando a ser eu o maestro, o regente da vida. Então, embebido de um êxtase, uma embriagante felicidade interior e sem que ninguém perceba, transformo a vida de cada um que me rodeia e transita pelo mesmo caminho que eu. E nesse mundo que crio e sou deus a felicidade se estampa em cada vidraça e em cada face. De súbito, o pedinte flutua em seus sonhos, a cigana gira no ar lendo a sorte dos passarinhos, o office-boy de par com o guarda desfila em meio à praça lotada de espectadores que dão a mínima para o trancar das portas bancárias, as crianças de cima da escultura de um falso herói dão saltos ornamentais no chafariz, e enquanto isso, a peculiar película de meus olhos registra todo esse arrebatamento. E ante a essa construção, esses mesmos contempladores olhos se enchem d’água, pois sabem que o espasmo desta fração terá seu fim no instante que o zinco e o cobre fizerem sua última troca iônica e toda a energia pulsante existente nas pilhas, então, mais uma vez se esvair.
O que destrói a ausência de forma é a fôrma, o que deprime a loucura é a sanidade. No final de tudo percebo que a alegria do mundo não estava no mundo e sim em mim em meus olhos. Os sons confusos da urbanidade voltam a povoar a mente e tudo torna a ser o que era, triste. Essa tristeza recai sobre as pessoas despertando-as as avessas, um banho de ducha na casa do Rei Leão [falarei dele futuramente]. Concluo que há sim, infelizmente, a necessidade de alicerces psicológicos e espirituais para vencer os desafios diários. E então passo a compreender porque, àquela noite, a Tristeza contrariou a natureza do universo, atravessou a barreira do tempo-espaço e decidiu procurar pela Alegria; algo era preciso ser feito.
- Não sei mais o que fazer.
- Não chore Dona Tris. Quer um copo d’água?
- Água... Quero não ter que trabalhar tanto. Quero poder tirar férias, passear no Tibet. Quero sim, uma reunião com o Sr. Lúcifer e Deus. Não suporto mais essa vida. Ta tudo muito confuso. Estou velha, acabada. Quero aposentadoria. Olhe para ti, ainda parece na flor da idade. Depois da Grécia antiga você quase não tem nada para fazer...
- Nisso a senhora tem razão, ninguém mais sorri como naquele tempo.
- Viu do que me chamou? Senhora... É o fim. Meu Zeus, onde está o verdadeiro humor dessa terra. Onde anda os Anysios da vida. Cansei de piadinhas de político. Cansei de piadinhas com celebridades... Não muda, cansei.
A conversa durou umas duas horas. Nada como duas garrafas de vinho para abrir a mente e a alegria e a tristeza contrariarem as leis da física. A reunião com os todos poderosos seria agendada sem falta para o próximo final de semana, de preferência na casa de Deus, onde sempre tem uísque 12 séculos. Mas mesmo assim, algumas ações foram pensadas no intuito de amenizar o que a priori parecia insolucionável. Dentre elas, algumas que já estão sendo votadas no plenário celeste, cito abaixo:
_na política; a liberação universal da maconha, mesmo em mesquitas e catedrais, essa erva que proporciona um estado de desligamento total, ressalva a China e Índia, onde tal liberação poderia ter como reflexo um outro problema sério; a falta de alimento.
_na música; a traição deveria aceita como um ato normal e humano, o que proporcionaria uma maior aceitação social desembocando em um teto máximo de lançamento de três duplas sertanejas anuais, ao contrário das milhares que vem surgindo mensalmente.
_na geografia; a não preocupação com a camada de ozônio, uma vez que o aquecimento provoca o derretimento das calotas aumentando o nível do mar, o que provocaria a diminuição de território, resumindo, uma aproximação massiva das pessoas.
_no cinema; todo o dinheiro acumulado pelos blockbusters americanos durante toda sua história de existência deveria ser devolvido ao país de origem e revertido para o aquecimento do que deve ser considerado realmente cinema.
_no trânsito; é extremamente proibido transitar em pé dentro dos ônibus, que portanto deverão circular com menor periodicidade. Um serviço de bordo com cerveja gelada de dia e vinho tinto a noite será estudado.
_no lazer; ingresso serão cobrados referente a 10% do salário mínimo para que as pessoas possam adentrar os shoppings. Esses complexos são coisas de burguês, que se restrinja a eles então, a maioria dos mortais necessitam de parque, bosque e cultura, e não de deixar suas salivas nas vitrines frontais dos mini-magazines. Estuda-se também a obrigatoriedade de que tais estruturas só possam ser construídas dentro de condomínios horizontais, assim dificilmente nos misturaríamos com tais classes.
_na religião; todo aquele que quiser falar com deus, o fará, desde que devidamente assessorado por Estamira¹. E não através das vulgares corporações da fé que se reciclam periodicamente para se ajustar ao sistema.
Amém.
1- www.estamira.com.br
céu de cinzas
Nessa época tinha apenas seis anos, idade não muito propícia para essas discussões e ensinamentos, mas algo dizia a seu pai que mesmo assim se faria necessário. Ele não estava de todo errado. Ano seguinte estouraria a segunda grande guerra e com ela o extermínio de milhares de pessoas.
- Estávamos em Budapeste, vi meu pai e minha mãe serem levados arrastados pelo corredor a fora e meu irmão sendo alvejado ali mesmo, caindo ao meu lado, junto ao soldado alemão que como um iceberg, imponente, ainda me jogou um sorriso que fez a minha respiração parar por quase dois minutos. O ariano não quis me levar com eles e nem ao menos desperdiçou uma balinha se quer em meu pequeno encéfalo, ao contrário disso, tenho plena certeza, pois pude ler em seus olhos, pensou ele que me deixando ali sozinho e desamparado, eu sofreria muito mais, seria muito mais humilhado e morreria amiúde vendo o terror passar pela retina. Tolo, pena dele não ter verdadeiramente conhecido meu pai, irá perder o sono. Três dias depois caminhava pela rua, já não estava mais em minha casa, para lhes ser sincero não sabia mais onde estava, a região era muito fria e as pessoas não entenderiam uma palavra sequer do que eu falava. Sentei junto a uma caixa, estava com o peito cheio, olhava as pessoas correndo e pensava apenas naquele momento e nada mais, só deus sabe o quanto meu pai foi importante para mim. Nesse instante, subitamente, pousou em meu rosto alguns fragmentos, dois, cor cinza como tudo ali, que chegavam de não sei onde, mas que flutuavam no céu como pluma em meio a outros tantos. Escutei alguém que passava pela rua gritar algo que pude decifrar como sendo “Eles estão nos cremando novamente”. Não sei por que, mas senti o toque de minha mãe e de meu pai quando esses dois fragmentos beijaram-me a testa e então pensei; esse lugar não mais terá meu presente ou meu futuro e um dia perderá o meu passado.
Assim nos contou Oliveira, judeu [apesar de ainda ter medo de ser considerado um], o filho, que saiu com vida daquela carnificina preso ao eixo de um caminhão. Hoje, com seus três quartos de século, Oliveira mora em uma casa abandonada em um bairro pobre de uma cidade do interior do Paraná, a casa rupestre era de uma senhora italiana, também resultado da guerra, mas da primeira, que faleceu sentada no banco da sala esquecida por seus filhos. Oliveira encontrou-a lá com um porta-retratos na mão, depois de descobrir um molho de chaves na calçada com o endereço no chaveiro. Enterrou-a no fundo da casa mesmo como se enterrasse tudo o que viveu. Na casa não há luz, apenas água, ele decidira pagar para ter o que beber e onde banhar. Todas as manhãs toma seu café e lê seu jornal na padaria do Alemão, tudo na faixa, é o mínimo que posso fazer diz o proprietário. O almoço fica por conta do que acha pela rua, e normalmente acha.
Oliveira despende seu tempo em duas coisas, quatro horas diárias de visitas a biblioteca municipal e outras cinco escrevendo sua biografia, dedicada ao pai, que pretende publicar com o dinheiro que achou embaixo do colchão da italiana. Junto ao dinheiro estava um bilhete que falava um pouco de quem ela fora e que terminava com o seguinte trecho “Deixo estes para aquele que um dia como eu foi um dos filhos sofridos da noite e sei que um dia virá o que necessita, pois este com certeza tarda mais não falha.” Semanalmente também vai à sala de cinema independente [onde entra de graça por ser amigo do dono, um dos filhos da antiga URSS], já assistiu mais de dez vezes “a infância de Ivan” de Tarkovski, seu preferido. E assim vai vivendo sem nunca pensar no futuro.
Conta ele também que chegou ao Brasil dois anos depois da chuva de cinzas escondido em um avião da FAB, ficou preso e antes de ser mandado de volta fugiu e se escondeu nas ruas protegido pelas vozes e gritos que nunca lhe abandonaram. Nunca o questionei sobre isso, quem tem coragem já carrega a sorte, assim diz e assim aprendi com ele.
alvejado
Para muitos aquele foi mais um simples e comum domingo, para ele, o encontro, início e fim de uma longa história.
a fraternidade é amarela
Jean Luck, ah sim, ele era um francês que estava a passeio por aquelas bandas. Ficara amigo do casal dias antes em uma festa havaiana na praia do Bolinho. Nessas festas em que todo mundo se torna amigo. Chamava a atenção pela forma estranha que dançava, diferente de tudo que já havia passado por aquele quiosque. O fato de o casal ser o único que lhe aparecera facilitou o processo. Também, claro, pelo conhecimento da língua do biquinho, eles passaram um período pequeno em terras napoleônicas.
No dia seguinte lá estava ele na casa de nossos conterrâneos para bebericar e petiscar ao som suave de “Baton na cueca”. Como não entendia nada, adorava o ritmo. Talvez por que combinava com sua dança. Beberam e dançaram muito. Não, o erro do nosso parisiense não foi ter conhecido e festejado com nossos brasucas. Seu erro sim foi ter conferido o bilhete da mega-sena acumulada que ele comprou para ajudar um “ceguinho” que lhe oferecera na manhã anterior.
Claro que foi um ato de nacionalidade extrema, nenhum tupiniquim aceitaria que um francesinho qualquer saísse daqui com uma quantia tão alta para gastar em praias espanholas ou em carros alemães. De súbito, sem pestanejar, os dois saltaram sobre o turista que teve tempo de dizer uma só palavra; fudeu!!!
No dia seguinte, cedo, a esposa caminhou até o banco. Trêmula, encantoou o gerente e lhe disse em voz baixa que havia tirado o prêmio máximo. Ele rapidamente levou-a para uma sala privada. Tudo parecia correr bem, ela já conseguia ver as notas que brilhavam em sua mão. “Compramos um iate, afogamos o branquelo em alto mar e pronto. Talvez ganhemos até uma medalha inglesa por tal bravia atitude.” – lembrou das palavras do marido.
-Onde foi mesmo que a senhora comprou o bilhete?
-Como assim.
-Como assim o que?
-Onde comprei? E isso importa?
-Olha se importa eu não sei, mas são normas que devemos cumprir. Até para saber a propriedade real do ganhador. Algum problema?
-É... sim. Quer dizer, não. Não sei...
-Não sabe onde comprou o bilhete?
-Sei, quer dizer, não sei se sei...
Fora o bastante. É claro que o gerente estava blefando, mas em menos de meia hora a frota foi chamada e o quarteirão fechado. Jornalistas brotavam como moto-táxi em dia de greve de transporte urbano. Curiosos rodeavam e as notas iam se esfarinhando no pensamento da dama.
Quatro horas de negociação e ele saiu pela porta da frente. Rápidamente os soldados passaram por ele e entraram correndo dentro da casa trazendo algemado o francês que tentava inutilmente dizer algo.
-Cala a boca seu boca murcha.02 trás nossa bengala que eu vou ensinar a esse aqui como que é nosso pão francês.
O marido ainda sem entender abraçou-a.
-Finge que está chorando.
-O que?
-Anda logo idiota.
Os dois choraram compulsivamente, como duas criancinhas. O comandante aproximou.
-Vocês estão precisando de alguma coisa?
-Não, apenas descansar.
O marido não entendia bulhufas. A mulher enxugava as lágrimas.
-Se precisarem de algo me avisem, esse é o meu cartão.
-Obrigado.
Entraram por adentro.
Há poucos dias chegaram de viagem. Na bagagem, compras, compras e mais compras, além é claro, fotos, algumas com a presença do nosso compatriota “ceguinho”.
Quando questionada sobre o acontecido, ela apenas diz:
-Não precisávamos de tanto dinheiro, 60% estava de bom tamanho.
Cé la Brazil.
Thursday, April 24, 2008
The end
Entrou em casa evitando ser percebida, inútil.
- Que houve Margô?
- Nada não.
- Como assim, nada não? - Retrucou o segundo, limpando sua automática.
- Nada não.
- Margô, não vem que eu te conheço.
- Tava no cinema, foi isso.
- Sério? E porque não me chamou?
- Precisava ficar sozinha.
- E como foi a atuação do galã ae? – o primeiro de forma esnobe.
- Puts, porque você acha que eu estou assim? Nunca vi na vida algo de tão profunda emoção, claro, depois de Dostoievski. Alguma novidade na tv? – perguntou ela.
- Ainda no mesmo marasmo, acho que vamos ter que ser mais enérgicos. Vamos mandar um pedaço da orelha...
- Da língua – completou o segundo de forma irônica.
- Cala a boca, não fala besteira, a coisa ta só começando. E como ta o objeto?
- No quarto do jeito que você deixou.
Margô caminhou pelo corredor que dava até uma porta mal iluminada. Abriu, no chão ao lado de um prato vazio com uma fita prendendo a boca, com os pés e as mão amarradas estava ele, murmurando. Ela se abaixou, olhou-o bem nos olhos, com uma das mãos segurou suas bochechas.
- Você é um filho da puta mesmo hein!.. Como consegue? [ele murmurou novamente] Nunca havia chorado tanto na minha vida como hoje assistindo a porra daquele filme seu. Que atuação hein!... [levantou] Sabe... Estou decidida a pedir mais por você, depois daquela cena seu passe deve estar valendo mais... Ah ta em... Pode ter certeza.
Ele murmurou algo e ela retirou a fita.
- O que você disse?
- O cinema, ele tava cheio?
- Não muito, perto de umas trinta pessoas.
- Que bosta, é sempre assim. Quando que as pessoas vão começar a acreditar na merda do nosso cinema nacional? hein!, me diz?
- Sei lá... mas aposto que da para arriscar uma estatueta lá de Gramado.
- Gramado... grande merda.
Ela pôs a fita de volta e saiu do quarto. Ele virou para o lado e uma lágrima molhou o taco.
O grito
Wednesday, April 02, 2008
O baile
Baile de máscaras... Quanto tempo não ouvia falar. Veio-lhe a lembrança do glamour de seus melhores anos, tudo se combinava, e ele não se sentia tão só como agora, mas tudo passa, os amores e a força, tudo um dia passa, menos a lembrança. Com certeza seria mais um daqueles equívocos, como o jantar dançante de 1986. Deixou o cartão cair sobre a mesa de centro e cochilou hipnotizado pelas imagens.
O salão era imenso e todo em mármore. As pessoas, em sua esmagadora maioria mais velhas como ele, estavam devidamente mascaradas e caminhavam em todas as direções, lentamente é claro. Garçons com bebidas e canapés se multiplicavam no espaço. Aparentemente não conhecia ninguém, mas desde sua entrada fora tratado com todo requinte, como um convidado especial. Caminhou, lentamente, comeu pouco, bebeu e puxou papo com uma ou duas pessoas, mulheres de preferência, queria sentir o prazer das suas flertadas de outrora, continuava encantador em sua retórica que ora passeava pela filosofia antiga, ora pela literatura argentina e chilena, mas que não surtiriam muito efeito ali, principalmente porque todas estavam na verdade acompanhando um ou outro convidado. Este foi um dos fatos que lhe chamara a atenção, sem contar que ninguém sabia explicar porque e quem havia feito o convite para tal festa. E assim foi se desenrolando a noite.
Quando o relógio já marcava próximo a meia noite, alguém que se apresentou como o representante do anfitrião solicitou a todos que se reunissem no saguão principal que dava de frente para a escada que levava ao andar superior. Aos poucos todos foram se espremendo e aglomerando no tal local, a essa altura, ninguém poderia prever mais nada, mas continuavam curiosos com o desfecho. Do topo da escada à meia luz surgiu um vestido longo e branco com um véu que cobria o rosto, mas não escondia suas rugas e sua idade, é das nossas, pensou. Houve um início de burbúrio no salão que logo foi calado pela voz da “noiva” que cuidadosamente descia as escadas. Sua voz soou conhecida e ele deu um passo a frente para checar com maior cuidado. Percebeu que não apenas ele, mas todos os homens ao seu redor sentiam o mesmo. Sophia, sim, era ela, confirmou pela pinta no braço esquerdo e o nariz que fez volume por baixo do véu, há mais de quarenta anos que ouço falar dela. Fora uma de suas presas na adolescência, mas nunca havia relatado o acontecido para ninguém, também pudera, como contar para os amigos que havia se deitado com a moça que na época recebia o carinhoso apelido de Bina [abreviatura de carabina]. De certa forma todos também a reconheceram. Loucura ou não, mas ela havia convidado grande parte dos homens que um dia passaram pela sua vida, sem exceção. Até um rapaz que aparentava seus vinte e poucos anos, e que a essa altura, de vergonha se encolhia atrás de uma das pilastras.
A história que aparentemente não teria como piorar mais, piorou. Houve uma revolta geral, por parte das esposas que se encontravam no local, quando Sophia anunciou o real motivo do convite. No auge dos seus setenta anos, ela que afirmou com toda convicção que ainda sentia tesão, gostaria de mais uma vez sentir o prazer de ser amada por cada um dos presentes que em algum momento da vida a amou. Foi a gota d’água, Sophia que nos tempos áureos fora totalmente destrambelhada, provocava alvoroço por onde passava, mais uma vez o fazia. Algumas mulheres puxaram o braço do companheiro para retirá-lo da festa, outras começaram a passar mal com o canapé que certamente não estava tão mais saboroso assim, as que a reconheciam do passado, jogavam insultos e injúrias. E o mais engraçado, ninguém tinha coragem de descolar a mascara do rosto, inclusive ele. Fantástico, foi seu último comentário
A porta abriu e ele entrou ofegante, com alguma dificuldade tirou o casaco, encostou sua bengala atrás da porta e olhou ao redor, sentindo novamente aquela pequena vertigem. Tenho que me mudar, pensou mais uma vez. Sentou exausto, sentindo a segurança da poltrona. Olhou o relógio que marcava três da manha. Jogou sua máscara sobre a mesa de centro. Ainda perplexo com a festa, sorriu admirado, lembrando de algumas cenas. O tumulto foi generalizado, a polícia foi chamada e por conta disso algumas máscaras foram ao chão. Sorriu outra vez balançando a cabeça, até você Jonas, pensou, até você...
texto para cultblog 31/ 03/ 08
Monday, March 24, 2008
A vendinha
Levantei a cabeça antes mesmo de ele se aproximar. Da porta pude notar que se tratava de mais um andarilho. Tenho acompanhado a evolução deles nesses últimos anos, desde que assumi a vendinha que foi uma das dúnicas heranças de minha falecida mãe. Antes eles apareciam semanalmente, agora, de três a quatro vezes por dia. Começo a desconfiar que não se trate apenas de um problema econômico, prefiro não estender o assunto. Mas esse não era um dos comuns, não, esse não. Em sua mão trazia um livro e um disco de vinil, trajava um blazer já desbotado, e carregava consigo alem de um olhar firme, um sotaque castelhano fortíssimo. Se aproximou.
-Um copo d’água, por favor.
Ele tampou seu livro. Sua testa não suava, a mão um pouco suja e seca e em um dos dedos, o maior, um anel que ao entrar em contato com a luz do sol que vazava pela fresta do teto, causa-proveniente de uma das pedras que o filho mais novo do visinho havia jogado, refletiu e clareou a parede estampando letras que formaram a palavra “liberty”. Desviei o olhar para o vinil, conhecia, mas não me lembrava de onde. Tudo fazia pouco sentido, me sentia em algum filme tarantinesco.
-Um copo d’água, por favor.
Entreguei-lhe o copo duplo, completei com água do refrigerador, garrafa essa que havia reservado para mim, era segunda-feira e estava com uma ressaca de matar. Ele tomou posse do copo me olhou e sentou em uma das mesas de madeira de jatobá que havia no canto da venda. Nunca soube realmente o gosto da água, mas tenho certeza, ele sabia. Em pequenos goles foi calmamente bebendo, e enquanto o líquido lhe preenchia o corpo, lágrimas em seu olho esquerdo brotavam. Tentei exitar, decidi então por lhe fazer companhia.
-Está tudo bem?
-Claro.
-O que lhe trás aqui?
-Curiosidade.
-Pois pergunte.
Olhei novamente o disco que agora apresentava a contra capa, a primeira faixa estava muito bem circulada; “One of these days”.
-Não sei, acho que isso não se faz necessário.
-Estou no mundo há mais de quarenta anos, destes, mais de trinta vivo a caminhar, posso dizer que conheço praticamente o mundo todo, da miséria de Burundi ao luxo de Sundsvall, acredite, o melhor que há em cada parada é a possibilidade de uma nova partida, as variadas variações das pessoas e a diferente cultura, e digo mais, de tudo que conheci nessa vida nunca encontrei algo tão fabuloso quanto isso, [Apontou para tudo que estava sobre a mesa] nunca li algo tão bom quanto água, nunca bebi algo tão profundo quanto esse disco, e jamais encontrei outro gosto de uma literatura como essa.
Virei a capa do livro para mim. Por alguns segundos fiquei embriagada com o que vi. O livro de areia que Borges um dia falou, segurei-o por todos os seus lados, era realmente fantástico, folheei, tudo era como Jorge havia descrito, as páginas, o infinito, tudo.
-Onde conseguiu?
-Todos nós o temos... mas poucos se lembram onde guardaram.
Falamos muito sobre muitas coisas àquela manhã, continuamos e continuaremos muito a falar e a outros lugares visitar. Eu e ele. A vendinha... Essa ainda deve estar à espera de mais outros tantos andarilhos. Não acredito que voltaremos a passar por lá.
Thursday, March 20, 2008
Em direção ao sol
- Você sabe por que está aqui meu rapaz?
- Porque o doutor pediu para que eu viesse.
Ele pos a mão no seu ombro e continuou.
- Você sabe que está sendo indiciado?
- O doutor me disse.
- Você sabe por quê?
- Não.
- Você está sendo indiciado pela morte de mais de vinte e três homens, que nesses últimos nove anos, quatro meses e sete dias morreram em suas mãos. Você tem noção do que isso representa?
- Homens? Não doutor, não eram homens não, eram caçadores.
- Eram homens, como eu e você.
- Não se compare a eles doutor. Eles eram caçadores. E foram apenas submetidos à lei da selva, nada mais do que isso, nada mais.
- Mas você sabe que as ações e os moldes aqui são diferentes.
- São? O que o senhor faria se alguém que você ama estivesse sobre a mira de uma espingarda ou na iminência de um machado? Em doutor, o que o senhor faria?
Thursday, March 13, 2008
Rosinha
Essas coisas sempre acontecem comigo. De repente o telefone toca e pronto, tudo muda. Então atendo, do outro lado uma voz chorosa balbucia algo que não entendo bem. Curioso, sem compreender muito o que se passa, aguardo ainda alguma comunicação mesmo que codificada. Em meios aos soluços e snifs, uma frase vem à tona - A culpa é sua. O que? Isso mesmo, a culpa é toda sua – e o choro volta a agredir meus ouvidos. A culpa é minha? Como assim? [Penso]. Quem está falando?
A verdade é que não estava vendo sentido em quase nada do que ouvia, primeiro por não ter a menor noção de quem estava na linha, segundo, não há quem consiga se concentrar e atender o telefone em meio a uma sessão de desencapetamento na 36° igreja dos centuriões alados do senhor, a segunda maior da cidade, com mais de três mil seguidores e um equipamento de som de ultima geração que faria inveja a qualquer WoodStock e principalmente com um pastor que rodeado de seus discípulos a meio metro de ti grita, esbraveja e lhe empurra para todas as direções.
Mas isso foi tudo coisa da Rosinha, sim, a linda Rosinha. Não sou e nem me predisponho a ser fiel a ponto de passar por tamanha ridícula situação, mas por Rosinha sim. Trabalho como encanador, acho que não havia falado sobre, sou o que hoje se intitula “free-lance”, trabalho por conta, e, portanto quase sempre me enfio em confusão, não sei se uma tem a ver com a outra, mas o fato é que poucos imaginam os apertos que já passei em minha vida por conta de minhas visitas, as mulheres são muito perigosas, acredite. Bom, conheci Rosinha na casa de seus patrões e meus clientes, eu avisei que os canos estavam velhos, que fazer barba na pia de 1976 daria problema, eu avisei. Nunca contei a ninguém da casa que uma vez encontrei um vibrador preso no cano de descarga da filha mais nova, Rafaela, dezoito aninhos, confesso que passei a observá-la com outros olhos a partir desse dia. Mas Rosinha, que não tinha nada a ver com isso, não, ela não, seus encanamentos eram perfeitos, que curvas, tudo no seu devido lugar, vinte e três anos, faxineira, moradora da periferia, sonhadora, linda, um fogo à altura de minha caixa d’água e apenas um defeito, muito devota, tanto que para cada sessão de encapetamento nossa, deveríamos nos repurificar com uma breve mas cansativa visita a casa do senhor, e por isso me encontrava ali naquele maldito lugar na hora que o telefone vibrou.
Pedi licença ao projeto de Edir Macedo, retirei sua mão de meu ombro e me afastei um pouco do barulho – Como você disse? A culpa é sua – a voz agora já se encontrava mais firme – Maria, é você? E ainda troca meu nome, seu cretino. E então desligou.
Maria é a sobrinha de um amigo meu, mas essa é outra história. Na certa era apenas engano, fato comum nos dias de hoje. De longe, fiquei apenas a observar Rosinha, permanecia linda em meio aos encapetados que buscam a purificação defronte ao altar,e me pergunto, será que o espírito maligno que sai de nosso corpo caminha através das mãos para o corpo do pastor? Creio que sim, ele não parava de olhar em direção aos volumosos seios de Rosinha.
Texto publicado na Coluna "Labirinto Retilinio" - Cultblog
Monday, March 03, 2008
Monday, February 18, 2008
as tais mineiras
entrevista sobre o show em homenagem a clara nunes.
produção audio visual: etcétera filmes
luiz salgado em BH
Show realizado em novembro de 2007 para o programa Música Independente - Rede Minas, no palácio das artes.
direção e edição: carlos tche
Monday, November 12, 2007
Ávida em gotas
O Senhor Sebastião Voltares, meu avô, fora o homem mais rico e poderoso da região, foi ele também o fundador da cidade, era um verdadeiro batalhador, amado e respeitado por muitos, ao contrario de seu filho e legado. Minha mãe, filha de um turco comerciante de tecidos, era a mulher mais linda e desejada que aparecera naquela redondeza e que de certa forma acabou por ser forçada, não por meu avô, mas pela situação, a se casar com meu pai, o herdeiro.
Antes de meu avô ir de fato, fui visitá-lo em seu leito. Ele sempre sorria de forma doce e singela à minha presença. Mesmo com toda a riqueza era honesto e incapaz de maltratar ou desmerecer qualquer um, mesmo o mais insignificantes dos seres, postura essa que por vezes deixava-me confuso, contraditoriamente ele implicava com os leiloeiros; apreciava mais os falsários. Nunca soube a verdadeira razão de sua proposição, às vezes penso que tenha a ver com os princípios “Don Corleonicos”. Agachado ao pé da cama e com os olhos úmidos, senti sua mão tocar meus cabelos e sua voz quase sem força me dizer “olá futrico” – era assim que me chamava. Com dificuldade continuou – obrigado meu neto, por tudo que têm feito por nós. Apesar de nunca ter mencionado nada a ninguém sobre minha capacidade, sabia que era justamente a isso que ele se referia. Meu avô era um sábio e por tal percebia que se a região fora privilegiada em abundancia de águas a partir de meus cinco anos de idade, eu teria que fazer parte de tudo isso, não seria apenas pura coincidência. Chorei a noite toda e prometi a mim mesmo que no dia que meu avô enfim nos deixasse, seria também a última vez que o papel sentiria a força de minha mão.
Os anos se passaram e a região que outrora fora fértil, encontra-se completamente à “Vidas Secas”, perdemos praticamente tudo e não mais os leiloeiros ou até mesmo os falsários nos implicam, nem eles, viu meu avô. Não mais avisto o horizonte pela janela aos pedaços e os patos, marrecos e outros bichos há muito nos serviram de alimento. É, definitivamente os tempos são outros.
Mas há sempre um fio de esperança. Hoje, por exemplo, voltou a chover.
Carlos Tche
Texto publicado no site da revista PIAUI
Tuesday, June 26, 2007
suave manhã
Pouco ganho com meus sonhos,
A maldição de minha idade
Encontra-se além dessas paredes.
Meu hálito perambula pelos arredores
E quando há falta de expressão em minhas loucuras,
Defronto-me com o suar dessas manhãs
E me cubro com sua pele ainda úmida.
O desejo que me guie entre os dentes
A vergonha que se esconda no canto nua,
Quem na porta que bate não entre
Nosso odor hoje não vai à rua.
Ai dos amores que se divertem em fração,
Abençoados nós, mal sabemos rimar.
Tudo é silêncio ao sussurro destoado
Os olhos se abrilhantam com um futuro recitado
Seguindo os passos de um andar distraído
De quem batera à porta decidido,
Mas que aos pés do leito chora
Não há nessa terra quem mais lhe devora,
Tu não mais irá voltar.
Monday, June 04, 2007
há cento
Ela nascera
E ela nascerá
Ela crescera
E ela crescerá
Ela aprendera
E ela aprenderá
Ela correra
E ela correrá
Ela amara
E ela amará
Ela sofrera
E ela sofrerá
Ela cansara
E ela cansará
Ela vivera
E ela viverá
Ela morrera
E ela morrerá
Ela ressurgira
E ela ressurgirá
Ela compreenderá
E ela finalmente compreendera
Que o passado e o futuro
Nada mais é
Do que uma questão de acento.
Tuesday, March 13, 2007
Poli, herói e o amante
Eu, sinto o mundo cair sobre mim
E tudo que disse está chegando ao fim
Promessas, desejos e previsões... previsões
Eu, vejo o mar invadindo a terra
Afogando a dor, inundando a guerra
Eu vejo as crianças brincando feliz... feliz
Eu, não me enquadro começo a sorrir
De tudo que um dia pensei intervir
O Manos covarde da televisão... televisão
Eu, sou mais um projeto não eclediano
Poeira corróe meus sonhos, meus planos
Caindo ao chão como pó de giz... de giz
Eu, desafio a vida sou água corrente
Viajo profundo estaticamente
Sou cópia perfeita, da sua obsessão... obsessão
Eu, que já fui Romeu, fui poli mercante
Ser poli, herói ou ser o amante
É o mesmo destino, de ser aprendiz... aprendiz
Mas, chegou o fim da linha, acabou a ilusão
Os três grandes magos sustentam minha mão
Vem a lucidez, minha alucinação... alucinação
E sei que já é real o que vejo agora
Meu corpo suplica, minha alma implora
I don´t give a shit,é hora de dormir.